Na presença da raiva – Kirshnamurti sobre a raiva

Na presença da raiva

Quando se defronta com a violência, o cérebro passa por uma rápida mudança química; ele reage muito mais rapidamente do que o golpe. O corpo todo reage e há resposta imediata; a pessoa pode não revidar, mas a própria presença da raiva ou do ódio causa essa resposta e existe ação.

Na presença de uma pessoa com raiva, veja o que acontece quando se está ciente disso sem que haja resposta a isso. No momento em que se está cônscio da raiva de outrem, e não se reage, há uma resposta muito diferente. O instinto da pessoa é responder ao ódio com ódio, à raiva com raiva; há uma injeção química que enseja reações nervosas no sistema. Mas acalme tudo isso na presença da raiva, e uma ação diferente se manifestará.

Questions and Answers, p 23

A raiva tem essa peculiar qualidade de isolamento.

A raiva tem essa peculiar qualidade de isolamento; como o sofrimento, ela aparta a pessoa e, ao menos por um tempo, toda relação chega a um fim. A raiva tem a força e vitalidade temporária do isolado. Existe um estranho desespero na raiva, pois isolamento é desespero. A raiva do desapontamento, do ciúme, da ânsia de ferir, dá um violento alívio cujo prazer é a autojustificação. Nós condenamos os outros, e essa própria condenação é uma justificativa para nós mesmos. Sem algum tipo de atitude, seja de autocondenação ou autohumilhação, o que somos? Usamos todos os meios para nos autosatisfazer; e a raiva, como o ódio, é um dos modos mais fáceis. A simples raiva, um repentino brilho que é rapidamente esquecido, é uma coisa; mas a raiva que é deliberadamente construída, que foi planejada e que busca ferir e destruir, é absolutamente outro assunto. A simples raiva pode ter alguma causa fisiológica que pode ser vista e remediada; mas a raiva que é resultado de uma causa psicológica é muito mais sutil e difícil de lidar. A maioria de nós não se importa de estar com raiva, encontramos uma desculpa para ela. Por que não deveríamos ficar enraivecidos quando nos maltratam ou ao outro? Então ficamos justamente enraivecidos. Nós nunca dizemos apenas que estamos com raiva, e paramos aí; entramos em elaboradas explicações para suas causas. Nunca dizemos apenas que somos ciumentos ou amargos, mas justificamos ou explicamos isto. Nós perguntamos como pode haver amor sem ciúme, ou dizemos que as atitudes de outra pessoa nos tornaram amargos, e assim por diante. É a explicação, a verbalização, seja silenciosa ou expressa, que sustenta a raiva, que dá a ela escopo e profundidade.

Commentaries on Living Series I Chapter 30, Anger

Interrupção da raiva

Todos nós temos, estou certo disso, tentado vencer a raiva, mas, de algum modo, isso não parece dissolvê-la. Existe uma outra abordagem para dissipar a raiva? A raiva pode surgir de causas físicas e psicológicas. A pessoa fica raivosa, talvez porque está ameaçada, suas reações defensivas estão sendo rompidas ou sua segurança, que foi cuidadosamente construída, está ameaçada e assim por diante. Todos nós estamos familiarizados com a raiva. Como vai se compreender e dissolver a raiva? Se você considera que suas crenças, conceitos, opiniões, são de grande importância, então está fadado a reagir violentamente quando questionado. Em vez de agarrar-se a crenças, opiniões, se você começa a questionar se elas são essenciais para a pessoa compreender a vida, então, através da compreensão, a interrupção da raiva acontece. Assim a pessoa começa a dissolver as próprias resistências que causam conflito e dor. Isto novamente requer severidade. Estamos acostumados a nos controlar por razões sociológicas ou religiosas ou por conveniência, mas erradicar a raiva requer profunda conscientização. Você diz que tem raiva quando ouve falar sobre injustiça. É porque você ama a humanidade, porque você é compassivo? Compaixão e raiva podem viver juntas? Pode haver justiça quando existe raiva, ódio? Você talvez esteja raivoso ao pensar na injustiça em geral, na crueldade, mas sua raiva não altera a injustiça ou a crueldade; ela apenas faz mal. Para produzir ordem, você mesmo tem que ser zeloso, compassivo. A ação nascida do ódio pode apenas criar mais ódio. Não pode haver retidão onde existe raiva. Retidão e raiva não podem estar juntas.

J. Krishnamurti, The Book of Life

Como eu olho a raiva?

Obviamente, olho para ela como um observador estando com raiva. Eu digo, “Eu estou com raiva”. No momento da raiva não existe “eu”; o “eu” chega imediatamente depois; o que significa tempo. Posso olhar para o fato sem o fator do tempo, que é o pensamento, que é a palavra? Isto acontece quando há o olhar sem o observador. Veja aonde isto me levou. Eu agora começo a perceber um modo de olhar; perceber sem a opinião, a conclusão, sem condenar, julgar. Portanto, percebo que pode haver “o ver” sem pensamento, que é a palavra. Assim a mente está além das garras de ideias, do conflito da dualidade e todo o resto. Então, posso olhar o medo não como um fato isolado? Se você isola um fato que não abriu a porta para a totalidade do universo da mente, então vamos voltar para o fato e começar novamente tomando outro fato de modo que você mesmo começará a ver a extraordinária coisa da mente, de modo que você tem a chave, você pode abrir a porta, você pode romper isso. Considerando um medo: medo da morte, medo do vizinho, medo de sua esposa dominá-lo, você conhece toda essa coisa de dominação, isso abrirá a porta? Isso é tudo que importa: não como se livrar disto porque no momento em que você abrir a porta, o medo é completamente varrido. A mente é resultado do tempo, e tempo é a palavra; que extraordinário pensar nisto! Tempo é pensamento; é o pensamento que gera medo, é o pensamento que gera o medo da morte; e é o tempo que é pensamento, que tem em sua mão todas as complexidades e sutilezas do medo.p>

J Kirshnamurti, The Book of Life

Vivendo a raiva

Quando se defronta com a violência, o cérebro passa por uma rápida mudança química, ele reage muito mais rapidamente do que a um golpe. O corpo todo reage, existe a resposta imediata, a pessoa pode não revidar reagindo, mas a própria presença da raiva ou do ódio causa essa resposta e existe então uma ação diferente de uma reação.

Na presença de uma pessoa com raiva, veja o que acontece a mente quando se está ciente disso sem que exista resposta reagindo a isso. No momento em que se está cônscio da raiva de outrem, e não se reage, há uma resposta muito diferente de uma simples reação. O instinto da pessoa é responder – dentro do sistema psicológico da mente – ao ódio com ódio, à raiva com raiva, existe uma injeção química que enseja reações nervosas nesse sistema. Mas acalmando tudo isso na presença da raiva, através atenção sem nenhuma avaliação, conclusão, explicação uma ação diferente – do vazio ou do silencio da ausência da força psicológica identificada agregante da mente – se manifestará.

Questions and Answers, p 23

Sobre a importância da atenção plena

Krishnamurti, um mestre espiritual da Índia, certa vez disse que se você pegar uma pedra do chão, uma pedra comum, e colocá-la sobre a mesa na sua sala de estar e depois olhar para aquela pedra com bastante cuidado todas as vezes em que você estiver na sala, ao final de um mês você verá aquela pedra como sagrada. O poder da atenção plena nos conduz para além da superfície, para a essência de como as coisas são.

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