A instrução de meditação de Chögyam Trungpa Rinpoche

Uma forma de lidar com os pensamentos durante a meditação

Após um certo tempo, Rinpoche refinou ainda mais as instruções, pedindo que colocássemos em nossos pensamentos o rótulo “pensando”. Ficávamos ali sentados com nossa expiração e, sem saber como havia acontecido, estávamos lá fora — planejando, tendo preocupações, fantasiando. Estávamos completamente em um outro mundo feito inteiramente de pensamentos. No momento em que percebíamos que isso havia ocorrido, deveríamos dizer a nós mesmos “pensando” e, sem fazer disso algo muito importante, simplesmente voltar à expiração.

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Chögyam Trungpa sobre expectaviva e esperança

“Precisamos abrir mão de nossas esperanças e expectativas, assim como de nossos medos, e marchar diretamente
para dentro do desapontamento, trabalhar com o desapontamento, entrar nele e fazer dele o nosso modo de vida, o que é uma coisa muito difícil de fazer. O desapontamento é um bom sinal de inteligência básica. Não pode ser comparado a nada: é nítido, preciso, óbvio e direto. Se formos capazes de nos abrir, começaremos a ver, de repente, que nossas expectativas são irrelevantes, se comparadas à realidade das situações que estamos enfrentando. Isto, automaticamente, traz uma sensação de decepção.”

“Tradicionalmente, a entrega é simbolizada por práticas como a prostração, que é o ato de cair ao chão num gesto de
renúncia. Ao mesmo tempo nos abrimos psicologicamente e nos entregamos completamente ao nos identificarmos com
o mais humilde dos humildes, reconhecendo nossa qualidade crua e rude. Não há nada que temamos perder quando nos
identificamos com o mais baixo dos baixos. Ao fazê-lo, preparamo-nos para ser um recipiente vazio, pronto para
receber os ensinamentos.”

— Chögyam Trungpa em Além do Materialismo Espiritual

Sorria para o medo – o despertar do autêntico coração da coragem

sorria para o medo - Chogyam TrungpaChögyam Trungpa em seu Sorria para o Medo nos fala sobre o medo usando a metáfora do guerreiro, falando de coragem, alienação de si mesmo e do mundo, de mindfulness aplicada no cotidiano e de meditação para conseguir reunir de volta a mente e o coração ou mente e corpo como ele diz. Chögyam Trungpa escreve de forma magistral, é um verdadeiro escultor com as palavras e consegue em um livro pequeno passar um conhecimento e sabedoria de milhares de anos.

É o tipo de livro para ler e reler sempre.

Alguns trechos:

  • Medo é nervosismo; medo é ansiedade; medo é um sentimento de inadequação, uma sensação de que talvez não sejamos de modo algum capazes de lidar com os desafios da vida cotidiana. Sentimos que a vida é incontrolável. As pessoas podem fazer uso de tranquilizantes ou da ioga para eliminar seus medos: elas tentam apenas levar a vida. Às vezes, dão um tempo no Starbucks ou no shopping. Nós temos todos os tipos de truques e dispositivos, os quais utilizamos com a esperança de conseguir vivenciar a coragem simplesmente liberando nossas mentes de nossos medos. De onde vem o medo? Vem de uma perplexidade primordial. De onde vem a perplexidade primordial? Vem de nossa incapacidade de harmonizar ou sincronizar mente e corpo.

 

  • Um dos maiores obstáculos à coragem são os padrões habituais que nos levam a nos enganarmos. Normalmente, não nos permitimos uma vivência plena de nós mesmos. Em outras palavras, temos medo de olhar para nós mesmos. Vivenciar a parte mais íntima da própria existência é constrangedor para muitas pessoas. Muitos tentam encontrar um caminho espiritual no qual não precisem olhar para si mesmos, mas onde possam no entanto libertar-se — na verdade, uma autolibertação de si mesmos. Isso é de fato impossível. Não podemos fazer uma coisa dessas. Temos que ser honestos conosco. Temos que ver nossas entranhas, nossa merda mesmo, nossas partes mais indesejáveis. Temos que ver isso. Essa é a base da condição de guerreiro e o ponto de partida para se dominar o medo. Temos que encarar nosso medo; temos que observá-lo, estudá-lo, interagir e praticar a meditação com ele. Também precisamos abandonar a noção de um salvador divino, o que não tem nada a ver com qualquer religião que tenhamos, mas refere-se à ideia de alguém ou algo que irá nos salvar sem que precisemos passar por qualquer sofrimento. Na verdade, o abandono dessa falsa esperança é o primeiro passo. Temos que contar com nós mesmos. Precisamos ser pessoas de verdade. Não adianta ficar se iludindo, esperando pelo melhor. Se você está mesmo interessado em se trabalhar, não pode permitir esse tipo de vida dupla, adotando ideias, técnicas e conceitos de todos os tipos, simplesmente para fugir de você mesmo. Isto é o que chamamos materialismo espiritual: a esperança de que você possa ter um bom sono, sob o efeito de sedativos, e que, ao acordar, tudo estará resolvido. Tudo estará curado. Assim, você não terá que passar por qualquer sofrimento ou problema.

 

  • Para mitigar a tristeza e o vazio que sentem, as pessoas buscam algum tipo de diversão. Esse mundo do entretenimento é projetado para ajudar você a esquecer quem você é e onde você está. A versão de divertimento do sol-ponente é a de esquecer sua tristeza amável e, em vez disso, torná-lo agressivo e “feliz”. No entanto, o que você está experimentando não é nem felicidade nem divertimento reais. Essa noção perversa de felicidade é baseada no esquecimento de que você existe, esquecimento de que sua mente e seu corpo poderiam algum dia estar sincronizados. Essa noção de felicidade é baseada em uma total separação de corpo e mente.

 

  • Quando ficamos ressentidos, transportamo-nos para outro lugar, porque estamos preocupados com outra coisa. Ser um guerreiro é estar simplesmente aqui sem distração nem preocupação. E quando estamos aqui, ficamos alegres. Podemos sorrir para nosso medo. Assim, a coragem não é o simples resultado de superar ou dominar o medo. Para o guerreiro, a coragem é um estado de ser positivo. É pleno de prazer, alegria e brilho nos olhos. Mahatma Gandhi foi um exemplo de alguém que encarnou essa virtude e coragem. Gandhi estava totalmente comprometido a ajudar a Índia a tornar-se uma nação independente. Ele aceitou todos os obstáculos, todos os problemas, e utilizou todos os meios possíveis para conquistar a independência sem violência. Em nossa própria vida, é possível aplicar uma versão em grau menor desse tipo de coragem. Podemos ser destemidos e autênticos, amáveis e ousados. Mas para isso, temos que manter o senso de humor, sempre. Cada vez que houver dúvida, haverá um novo degrau em sua escada. A dúvida está lhe dizendo que você precisa subir outro degrau. Cada vez que houver um obstáculo, você sobe mais um degrau, indo além, passo a passo.

Como é a prática da meditação por Chogyam Trungpa

Tem havido uma série de idéias errôneas acerca da meditação. Algumas pessoas a consideram um estado mental semelhante a um transe. Outras pensam nela em termos de treinamento, no sentido de ginástica mental. A meditação, contudo, não é nenhuma dessas coisas, embora lide com estados mentais neuróticos. Não é difícil nem impossível lidar com tais estados. Eles têm energia, pressa e um certo padrão. A prática da meditação implica deixar ser – uma tentativa de acompanhar o padrão, uma tentativa de acompanhar a energia e a velocidade. Dessa forma, aprendemos como lidar com esses fatores, como relacionar-nos com eles, não no sentido de fazê-los amadurecer como gostaríamos, mas no sentido de conhecê-los como são e de trabalhar com o seu padrão.

Há uma história sobre o Buda em que se conta como ele, de uma feita, transmitiu ensinamento a um famoso tocador de citara que desejava estudar meditação. Perguntou o músico: “Devo controlar minha mente ou devo deixá-la completamente solta?” O Buda respondeu: “Visto que você é um grande músico, diga-me como afinaria as cordas do seu instrumento.” Disse o músico: “Eu não as deixaria ficar nem demasiado retesadas nem demasiado frouxas.” “Da mesma forma,” acudiu o Buda, “na sua prática da meditação você não deve impor nada com demasiada força à sua mente, nem deve permitir que fique ao leu.” Eis aí o ensinamento de como deixar a mente ser de um modo bastante aberto, de como sentir o fluxo da energia sem tentar sujeitá-lo e sem deixar que ele se descontrole, de como acompanhar o padrão da energia da mente. Essa é a prática da meditação.

Tal prática se faz necessária, via de regra, porque o padrão do nosso pensamento, o nosso modo conceitualizado de conduzir a vida, ou é demasiado manipulativo, impondo-se ao mundo, ou completamente desgovernado e sem controle.

Por conseguinte, nossa prática da meditação precisa começar com a camada mais superficial do ego, com os pensamentos discursivos que estão sempre a atravessar-nos a mente, com a nossa tagarelice mental. Os Senhores empregam o pensamento discursivo como a sua primeira linha de defesa, como peões, em seu esforço para iludir-nos.

Quanto mais geramos pensamentos, tanto mais ocupados nos tornamos mentalmente e tanto mais nos convencemos da nossa existência. Desse modo, os Senhores estão constantemente tentando ativar esses pensamentos, tentando criar uma constante sobreposição de pensamentos, para que nada mais se possa ver além deles. Na verdadeira meditação não existe a ambição de suscitar pensamentos, e tampouco existe a ambição de suprimi-los. Permite-se apenas que ocorram espontaneamente e se tomem a expressão de uma sanidade básica. Eles se tomam a expressão da precisão e da clareza do estado desperto da mente.

Se for vazada a sua estratégia de estar sempre criando pensamentos sobrepostos, os Senhores, então, agitam emoções para distrair-nos. A qualidade excitante, colorida e dramática das emoções nos prende a atenção como se estivéssemos assistindo a um filme absorvente. Na prática da meditação não encorajamos as emoções nem as reprimimos. Vendo-as com clareza, deixando que sejam como são, não mais permitimos que sirvam de meios para nos entreter e distrair. Dessa maneira, elas se tomam a energia inexaurível que executa a ação sem ego.

Na ausência de pensamentos e emoções, os Senhores introduzem uma arma ainda mais poderosa, os conceitos. A rotulação dos fenômenos cria a sensação de um mundo sólido e definido de “coisas”. Um mundo estável reassegura que somos, igualmente, uma coisa sólida e contínua. O mundo existe e, portanto, eu, que o percebo, também existo. A meditação implica ver a transparência dos conceitos, de sorte que a rotulação já não serve como meio de solidificar o nosso mundo e a nossa imagem do eu. A rotulação passa a ser, simplesmente, ato de discriminação. Os Senhores ainda têm outros mecanismos de defesa, mas seria por demais complicado discuti-los no presente contexto.

Mediante o exame dos seus próprios pensamentos, emoções, conceitos e demais atividades mentais, o Buda descobriu que não precisamos lutar para provar nessa existência, não precisamos ficar sujeitos ao jugo dos Três Senhores do Materialismo. Não há necessidade de lutar para sermos livres; a ausência de luta, em si mesma, é liberdade.

Este estado desprovido de ego é a realização da Natureza Búdica. O processo de transformar o material da mente para que deixe de ser expressão da ambição do ego e passe a ser, por meio da prática da meditação, expressão da sanidade básica e da iluminação — eis o que poderíamos chamar de verdadeiro caminho espiritual.

Chogyam Trungpa em Além do Materialismo Espiritual

*Os Senhores citados no texto: Uma interessante metáfora empregada no Budismo tibetano para descrever o funcionamento do ego é a dos ‘Três Senhores do Materialismo”: o “Senhor da Forma”, o “Senhor da Fala”, e o “Senhor da Mente”. Na discussão que se segue sobre os Três Senhores, as palavras “materialismo” e “neurótico” dizem respeito à ação do ego.