Alguns destaques do livro O Salto de Pema Chödrön

Alguns destaques do livro O Salto de Pema Chödrön

Sofrimento e problemas

Como a maioria das pessoas acredita equivocadamente que os problemas exteriores são os seus próprios problemas, elas buscam refúgio em objetos errôneos. Como resultado, o seu sofrimento e os seus problemas nunca acabam.
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O Salto (Chödrön, Pema)

Meditação e atenção plena

Fazer pausas bem curtas durante o dia é uma maneira que quase não requer esforço para atingir esse caminho. Por alguns segundos, podemos estar presentes. A meditação é outro modo de treinar o aprendizado da permanência, ou, como um aluno disse com mais perspicácia, aprender a voltar ao momento presente.
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O Salto (Chödrön, Pema)

Evitando o presente

Essa fuga de tudo que é desagradável, esse ciclo contínuo de evitar o presente é uma reação egoísta, um apego exagerado a si mesmo, ou ao ego.
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O Salto (Chödrön, Pema)

O ego na essência é a experiência de nunca estar presente

Existem muitas abordagens para discutir o ego, mas, na essência, é o que mencionamos. É a experiência de nunca estar presente. Existe uma tendência arraigada, quase uma compulsão, para desviar a atenção, mesmo quando não estamos conscientemente nos sentindo desconfortáveis. Todas as pessoas sentem-se um pouco ansiosas. Há um pano de fundo de nervosismo, tédio e inquietude. Como relatei, durante o período do meu retiro, quando não havia quase distrações, mesmo assim vivenciei esse profundo desconforto. Segundo a explicação budista, sentimos essa sensação desagradável, porque estamos sempre tentando ter uma estrutura firme e quase nunca conseguimos.
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O Salto (Chödrön, Pema)

Encarando nossos demônios

Achamos que encarar nossos demônios trará à lembrança algum acontecimento traumático ou a descoberta de que não temos nenhum valor. Mas, ao contrário, é justamente enfrentando essa sensação desconfortável e inquietante de não ter um lugar para fugir que descobriremos — imagine o quê? — que sobrevivemos e não iremos desmoronar, sentimos um profundo alívio e uma sensação de liberdade.
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O Salto (Chödrön, Pema)

Praticando a permanência

Uma maneira de praticar a permanência é fazer uma pausa, ficar alerta e respirar fundo três vezes. Outra maneira é sentar-se imóvel por algum tempo e escutar. Ouça os sons da sala. Por um minuto, escute os sons próximos a você. Por um instante, ouça os sons distantes.
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O Salto (Chödrön, Pema)

Devaneios nos dão uma sensação agradável de falsa segurança

Desde criança, fortalecemos o hábito de fugir, escolhendo a fantasia em vez da realidade. Infelizmente, encontramos muito conforto em devanear, em nos voltarmos para nossos pensamentos, preocupações e planos. Isso nos dá uma sensação agradável de falsa segurança.
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O Salto (Chödrön, Pema)

Sofrimento e medo

Então, aprendi o seguinte: interesse-se por seu sofrimento e medo. Aproxime-se, entregue-se, fique curioso; mesmo que seja por um instante, vivencie os sentimentos além dos rótulos, além de serem bons ou ruins. Dê boas-vindas a eles. Estimule-os. Faça qualquer coisa para dissolver a resistência.
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O Salto (Chödrön, Pema)

Quanto mais estiver presente com você mesmo, mais você perceberá contra o que todos nós lutamos. Assim como eu, outras pessoas sofrem e querem eliminar o sofrimento. E como eu, elas agem de um modo que só agrava a situação.
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O Salto (Chödrön, Pema)

uma evidência científica: a duração de qualquer emoção especial é só de um minuto e meio. Depois desse espaço de tempo, temos de reviver a emoção e deixar que ela flua de novo. Nosso processo habitual é de automaticamente revivê-la, alimentando-a com uma conversa interna,
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O Salto (Chödrön, Pema)

Meditação: treino de atitude diante de tudo que surge na vida

A forma pela qual encaramos o que surge durante a meditação representa um treino de nossa atitude diante de tudo que surge em outras situações da vida. Portanto, o desafio está em desenvolver compaixão juntamente com uma visão clara, em treinar para estar leve e animado, em lugar de tornar-se mais infeliz e oprimido pela culpa.

Se não for assim, tudo o que vamos conseguir é rebaixar a nós mesmos e a todos os demais. Nada está à altura. Nada é bom o bastante. A honestidade, sem bondade, humor e boa vontade, pode ser simplesmente mesquinha. Do início ao fim, voltar-se para o próprio coração a fim de descobrir o que é verdadeiro não é apenas uma questão de honestidade, mas também de compaixão e respeito por aquilo que vemos. É importante aprender a ser generoso consigo mesmo e a respeitar-se, já que, fundamentalmente, quando nos voltamos para nosso coração e começamos a perceber o que é radioso e o que é confuso, o que é doce e amargo, estamos descobrindo não apenas a nós mesmos — estamos descobrindo o universo. Quando vemos o Buda que somos, percebemos que tudo e todos são o Buda. Percebemos que tudo e todos estão despertos. Tudo é igualmente precioso, inteiro e bom. Todos são igualmente preciosos, inteiros e bons. Quando encaramos pensamentos e emoções com humor e abertura, passamos a perceber o universo da mesma maneira. Não estamos falando apenas de nossa libertação pessoal, mas de ajudar a comunidade em que vivemos, nossa família, nosso país, todo o continente, sem falar do mundo, da galáxia e de tão longe quanto quisermos ir. Há uma interessante transição que ocorre natural e espontaneamente. Começamos a descobrir que, à medida que há coragem em nós mesmos — disposição para olhar, para voltar-se diretamente para o próprio coração — e à medida que somos generosos conosco mesmos, surge a segurança de que, na verdade, podemos nos esquecer de nós mesmos e nos abrir para o mundo. Não abrimos nosso coração e mente às pessoas simplesmente porque elas desencadeiam em nós uma confusão com a qual não queremos lidar, pois não nos sentimos corajosos ou equilibrados o bastante. À medida que olhamos com clareza e compaixão para nós mesmos, temos confiança e coragem para olhar nos olhos dos outros.

Então, essa experiência de abertura em direção ao mundo começa, simultaneamente, a beneficiar a nós mesmos e aos demais. Quanto mais nos relacionamos com os outros, mais rapidamente descobrimos onde estamos bloqueados, em que ponto somos ásperos, temerosos e fechados. Esse processo é benéfico, mas é também doloroso. Frequentemente, nossas reações servem de munição contra nós mesmos e essa é a única resposta que conhecemos. Não somos bondosos. Não somos honestos. Não somos corajosos e, portanto, bem que poderíamos desistir de tudo agora mesmo. No entanto, se aplicarmos suavidade e ausência de julgamento a tudo que virmos, neste exato momento, conseguiremos fazer amizade com esse constrangedor reflexo que vemos no espelho. Olhar para essa imagem transforma-se em motivação para nos tornarmos mais leves e suaves, já que sabemos que essa é a única maneira de continuar a trabalhar com os outros e ser de algum benefício para o mundo. Esse é o começo do crescimento. Seremos sempre crianças enquanto não quisermos ser honestos e bondosos conosco mesmos. Quando simplesmente tentamos aceitar a nós mesmos, o velho fardo da autoimportância torna-se bem mais leve. Finalmente, existe espaço para uma curiosidade autêntica e percebemos que sentimos gosto pelo que nos cerca.

Trecho de Quando tudo se desfaz por Pema Chödrön

Ferramentas para libertação do sofrimento: a meditação

Sem dúvida, não existe uma resposta fácil de como nos libertamos do sofrimento, mas nossos professores fazem todo o possível para nos guiar dando-nos uma espécie de caixa de ferramentas espiritual. A caixa contém ensinamentos e práticas pertinentes e úteis, assim como uma introdução a uma visão absoluta da realidade: que os pensamentos, emoções ou shenpa não são tão sólidos como parecem. A ferramenta principal, que engloba o relativo e o absoluto, é a prática de meditar sentado, sobretudo, quando ensinada por Chögyam Trungpa. Ele descreveu a prática básica como estar totalmente presente. E enfatizou que abre espaço para que nossas neuroses aflorem. Não era, como disse, “umas férias da irritação”. Ele ressaltou que essa prática básica, sintetizada pela instrução de voltar sempre ao imediatismo de nossa experiência, de respirar, sentir, ou outro objeto da meditação, revela uma completa abertura em relação às coisas como elas são, sem um revestimento conceitual. Permite que iluminemos e apreciemos nosso mundo e a nós mesmos incondicionalmente. Seu conselho sobre a maneira de nos relacionarmos com o medo, a dor, ou a falta de uma estrutura sólida e de lhes dar boas-vindas, de ficarmos coesos em vez de nos fragmentarmos em dois, uma parte rejeitando ou julgando a outra. Sua instrução em relação à respiração era de senti-la de leve e deixá-la fluir. Seu ensinamento a respeito dos pensamentos era o mesmo: deixá-los livres para desaparecerem no espaço sem fazer da meditação um projeto de autoaperfeiçoamento. A atitude em relação a essa meditação é de relaxar. Sem uma sensação de esforço para alcançar um estado superior, simplesmente sentamos sem uma meta, sem tentar ficar calmo ou se libertar de todos os pensamentos, e seguimos as instruções: sentar confortavelmente, com os olhos abertos, consciente do objeto da meditação sem sobrecarregá-lo (não é uma concentração intensa), e a mente devaneia, mas depois volta com suavidade. O que quer que aconteça, não nos desculpamos ou condenamos. A imagem usada com frequência é de uma pessoa idosa sentada sob o sol, observando calmamente crianças brincando. É claro, temos de ser pacientes com esse processo e nos permitir um tempo ilimitado. É como se girássemos uma roda a vida inteira. Ela roda rápido, mas, por fim, aprendemos a não mais girá-la. Sabemos que a roda continuará a girar por algum tempo. Ela não vai parar de repente. Essa é uma situação muito comum: paramos de girar a roda, nem sempre fortalecemos o hábito, mas estamos em um estado intermediário especial, entre não ser sempre fisgado e nem ser capaz de resistir a morder o anzol. Isso se chama “o caminho espiritual”. Na verdade, não existe mais nada além desse caminho. Não existe outro caminho além do modo com que nos relacionamos a cada momento com os acontecimentos. Desistimos da expectativa de qualquer realização e, nesse processo, continuamos a aprender o que significa apreciar o fato de estar aqui.

Há alguns anos, eu estava dominada por uma ansiedade profunda, uma ansiedade crucial e intensa sem um motivo aparente. Sentia-me muito vulnerável, com medo e angustiada. Apesar de sentar e respirar, relaxar e sentir a sensação, o terror não diminuía. Esse estado psicológico continuou por muitos dias, e eu não sabia o que fazer. Procurei meu professor Dzigar Kungtrül, e ele disse: “Oh, eu conheço esse lugar”. Isso foi reconfortante. Contou-me que, em determinadas épocas de sua vida, ele teve a mesma sensação. Disse que foi uma parte importante de sua jornada, além de um grande aprendizado. Depois, fez algo que mudou minha maneira de praticar. Pediu para eu descrever o que sentia. Perguntou se feria fisicamente e se era quente ou frio. Pediu para descrever a característica da sensação da forma mais precisa possível. Esse exame detalhado continuou por algum tempo, e, então, ele se animou e falou: “Ani Pema, essa é a bênção Dakini. É um nível superior de bênção espiritual”. Eu quase caí da cadeira. Pensei: “Uau, isso é maravilhoso!” Eu não podia esperar o momento de sentir essa sensação tão intensa de novo. E sabe o que aconteceu? Quando sentei ansiosa para praticar, é claro, desaparecera a resistência, assim como a ansiedade. Agora sei que, em um nível não verbal, a aversão à minha experiência foi muito forte. Provoquei uma sensação desagradável. Basicamente, eu só queria que desaparecesse. Mas, quando meu professor disse “bênção Dakini”, mudou por completo o modo com o qual a via. Então, aprendi o seguinte: interesse-se por seu sofrimento e medo. Aproxime-se, entregue-se, fique curioso; mesmo que seja por um instante, vivencie os sentimentos além dos rótulos, além de serem bons ou ruins. Dê boas-vindas a eles. Estimule-os. Faça qualquer coisa para dissolver a resistência. Assim, da próxima vez que perder a confiança e não suportar o que está sentindo, lembre-se dessa instrução: mude a maneira de encarar a experiência e aceite-a. Em termos básicos, essa foi a instrução que recebi de Dzigar Kungtrül. E agora a transmito a você. Em vez de atribuir seu desconforto a circunstâncias externas ou à sua fraqueza, escolha ficar presente e despertar sua experiência, sem rejeitá-la, sem agarrá-la, nem alimentar histórias que conta a si mesmo sem cessar. Esse é um conselho inestimável que se dirige à verdadeira causa do sofrimento, seu, meu e de todos os seres vivos.

Trecho do livro O Salto de Pema Chödrön

Shenpa – Apego a nossa identidade, apego ao ego

Do livro O Salto de Pema Chödrön

shenpa representa também nossa ansiedade e a vontade de se coçar. Ela nos impele a fumar um cigarro, a comer demais, a beber mais um drinque, a dizer alguma coisa maldosa ou a contar uma mentira. É assim que a shenpa surge em nossas experiências cotidianas. Alguém diz uma palavra áspera, e você fica tenso: instantaneamente, somos fisgados. A tensão logo se manifesta em culpar a pessoa ou nos depreciar. A reação em cadeia de falar, agir ou nos tornarmos obsessivos acontece com rapidez.

shenpa, fundamental e básica, é o apego ao ego: apego à nossa identidade, à imagem que temos de nós.

Por exemplo, quando as palavras estão impregnadas de shenpa, elas, com facilidade, convertem-se em palavras de ódio. Qualquer palavra pode transformar-se em um insulto racial, em uma linguagem agressiva, quando tem a força e o impulso da shenpa por trás.

“Nessa jornada do despertar, essa jornada de aprender a estar presente, é muito útil reconhecer a shenpa quando ela provoca uma reação. Pode ser uma manifestação sutil, um recuo ligeiro, uma tensão involuntária, ou um choque total e extremamente carregado. Na verdade, não importa se a shenpa vier como brasa ou como um incêndio violento em uma floresta. Se der o primeiro passo e perceber que foi fisgado, já estará interrompendo uma antiga reação habitual. Que já interrompeu o movimento, mesmo que por pouco tempo, de acionar o piloto automático e fugir. Você está desperto, consciente de que foi fisgado e, neste momento, você tem uma escolha: pode fortalecer ou não a shenpa. É um momento de extrema tensão no qual você aumenta aos poucos a intensidade, ou escolhe se imobilizar e vivenciar a energia desconfortável sem lutar. Em vez de ver a shenpa como um obstáculo a ser transposto, é melhor considerá-la uma oportunidade de transformação, uma porta aberta para o despertar. Quando percebo que fui impelida a agir, penso que é um momento neutro, um momento no tempo, um momento de verdade que pode seguir qualquer rumo. É um momento precioso para começarmos a fazer escolhas que levarão à felicidade e à liberdade, e não a escolhas que acarretarão um sofrimento desnecessário e à imprecisão de nossa inteligência, cordialidade, e de nossa capacidade de continuarmos receptivos e presentes no movimento natural da vida. Ulisses, o herói da antiga mitologia grega, exemplifica a coragem ao escolher conscientemente ficar receptivo e presente quando a tentação de desistir é intensa. Na viagem marítima de volta à Grécia depois da guerra de Troia, Ulisses sabia que seu navio atravessaria uma área muito perigosa habitada por lindas donzelas conhecidas como sereias. Ele fora prevenido que o apelo dessas mulheres era irresistível e que os marinheiros não conseguiam evitar a tentação de se dirigirem a elas; assim, despedaçavam os barcos nas rochas e afogavam-se. Mas Ulisses queria ouvir o canto das sereias. Ele conhecia a profecia que, se alguém ouvisse suas vozes e resistisse a procurá-las, as sereias perderiam o poder para sempre e definhariam até morrer. Esse desafio motivou-o. Assim que o navio aproximou-se da terra natal das sereias, Ulisses disse aos seus homens para colocarem cera em seus ouvidos e o amarrarem bem apertado no mastro, instruindo-os que por mais que lutasse e gesticulasse, não importa quanto mais colérico ficasse ordenando que cortassem as cordas, eles não o desamarrariam até que o navio chegasse a um ponto familiar da terra, bem distante do som do canto das sereias. Essa história, é claro, teve um final feliz. Os homens seguiram suas instruções, e Ulisses venceu o desafio. Em um grau maior ou menor, todos nós teremos de passar por um desconforto similar, para não seguir o apelo de nossas sereias pessoais e atravessar a porta aberta do despertar. Cada um de nós pode ser um participante ativo na criação de um futuro sem violência, apenas com a forma com que trabalhamos a shenpa no momento em que surge. Hoje, a maneira como reagimos ao sermos fisgados tem implicações globais. Nesse momento neutro, com frequência de extrema tensão, conscientemente escolhemos fortalecer nossos antigos medos baseados no hábito, ou vivenciamos em sua plenitude a energia agitada e inquieta, deixando-a se desdobrar e fluir com naturalidade. Não haverá falta de oportunidades ou material para trabalhar. Ao examinar com atenção esse processo de mudança, como faço há anos, é fácil notar que é preciso coragem para relaxar com nossa energia dinâmica tal como ela é, sem cisão ou uma tentativa de se esquivar. É preciso a coragem, determinação e curiosidade de um Ulisses para permanecermos abertos e receptivos à energia da shenpa, à irritação cutânea e à ansiedade da shenpa, e não reagirmos da forma habitual.

A reação pode ser muito forte. Como Dzigar Kungtrül diz, uma das qualidades da shenpa é sua persistência. A ânsia de se vingar, o poder do desejo, a força do hábito assemelha-se a uma força magnética que nos impele a uma direção familiar.

Essa prática de transformação requer, em particular, que você permaneça aberto e receptivo à sua energia quando for estimulado. Ela inclui três etapas. Etapa Um. Perceber o momento em que foi fisgado. Etapa Dois. Fazer uma pausa, respirar três vezes conscientemente, e deixar-se levar pela energia. Apoie-se nela. Aceite-a. Vivencie totalmente a energia. Prove seu gosto. Toque-a. Cheire-a. Fique curioso a seu respeito. Como ela se comporta em seu corpo? Que pensamentos provoca? Torne-se íntimo da ansiedade e da angústia da shenpa, e continue a respirar. Uma parte dessa etapa é aprender a não ser seduzido pela força da shenpa. Como Ulisses, é possível ouvir o apelo das sereias sem se seduzir. É preciso permanecer consciente e compassivo, interrompendo sua força e evitando que cause dano. Não fale, não aja, e sinta a energia. Una-se à sua energia, com o fluxo e refluxo da vida. Em vez de rejeitá-la, aceite-a. Essa entrega é muito aberta, curiosa e inteligente. Etapa Três. Depois, relaxe e siga sua vida sem que a prática converta-se em algo complicado, um teste de tolerância, uma competição em que você vence ou perde. O maior desafio dessa prática é aceitar a energia inquieta, e permanecer consciente em vez de se esquivar automaticamente. No início, só conseguimos suportar o desprazer e sair da espiral da angústia por alguns breves momentos, porém o hábito retorna.”

“Quanto mais estiver presente com você mesmo, mais você perceberá contra o que todos nós lutamos. Assim como eu, outras pessoas sofrem e querem eliminar o sofrimento. E como eu, elas agem de um modo que só agrava a situação.”

“Quando começamos a ver a reação em cadeia da shenpa, não nos sentimos superiores. Ao contrário, esse insight tem o potencial de nos tornar humildes e faz com que sintamos mais simpatia pela perplexidade dos outros.”

Ego, descontentamento, medo e ansiedade – livro O Salto de Pema Chödrön

Os ensinamentos budistas dizem que a raiz de nosso descontentamento é nossa personalidade autocentrada e o medo de concentrar nossa atenção no momento presente.

Facilmente, podemos nos transformar de pessoas abertas e receptivas — um sentimento vivo e alerta — em pessoas introvertidas. Mais uma vez, sentimos desconforto e procuramos um alívio rápido, que nunca atinge a raiz do problema. Somos iguais a um avestruz enfiando a cabeça na areia com a esperança de encontrar conforto. Essa fuga de tudo que é desagradável, esse ciclo contínuo de evitar o presente é uma reação egoísta, um apego exagerado a si mesmo, ou ao ego. Uma das metáforas para se referir ao ego é um casulo. Ficamos dentro de nosso casulo porque temos medo, o medo de nossos sentimentos e das reações que a vida vai provocar. Tememos o que pode nos acontecer. Mas se essa estratégia de esquivar-se funcionasse, Buda não teria precisado ensinar nada, porque nossas tentativas de fugir da dor, as quais todos os seres humanos instintivamente recorrem, teriam resultado em segurança, felicidade e conforto, e não existiriam problemas. Porém, como Buda observou, a autoabsorção, essa tentativa de encontrar zonas de segurança, gera um terrível sofrimento. Ela nos debilita, o mundo torna-se mais aterrador, e nossos pensamentos e emoções passam a ser cada vez mais ameaçadores.

Existem muitas abordagens para discutir o ego, mas, na essência, é o que mencionamos. É a experiência de nunca estar presente. Existe uma tendência arraigada, quase uma compulsão, para desviar a atenção, mesmo quando não estamos conscientemente nos sentindo desconfortáveis. Todas as pessoas sentem-se um pouco ansiosas. Há um pano de fundo de nervosismo, tédio e inquietude. Como relatei, durante o período do meu retiro, quando não havia quase distrações, mesmo assim vivenciei esse profundo desconforto. Segundo a explicação budista, sentimos essa sensação desagradável, porque estamos sempre tentando ter uma estrutura firme e quase nunca conseguimos.

Achamos que encarar nossos demônios trará à lembrança algum acontecimento traumático ou a descoberta de que não temos nenhum valor. Mas, ao contrário, é justamente enfrentando essa sensação desconfortável e inquietante de não ter um lugar para fugir que descobriremos — imagine o quê? — que sobrevivemos e não iremos desmoronar, sentimos um profundo alívio e uma sensação de liberdade.

Do livro O Salto de Pema Chödrön

Opiniões são opiniões – Pema Chödrön

Opiniões são opiniões, nada mais, nada menos. Podemos começar a percebê-las e a rotulá-las como tal, assim como rotulamos nossos pensamentos. Por meio desse exercício simples, entramos em contato com a noção de ausência de ego. O ego nada mais é que o conjunto de nossas opiniões, mas nós o consideramos sólido e real — uma verdade absoluta. Ter ao menos alguns segundos de dúvida sobre a solidez e verdade absoluta de nossas próprias opiniões, ao menos começar a ver que elas existem, leva-nos a conhecer a possibilidade de ausência de ego. Não temos de nos livrar delas, nem nos criticarmos por tê-las. Podemos apenas observar o que dizemos a nós mesmos e perceber que grande parte disso só reflete nossa visão particular da realidade, que pode ou não ser compartilhada pelos demais.

É possível simplesmente deixar que nossas opiniões passem e voltar ao momento presente. Voltamos a olhar o rosto de quem está à nossa frente, a saborear nosso café, a escovar os dentes, ou ao que quer que estejamos fazendo. Quando, ao menos por um instante, conseguimos perceber nossas opiniões como opiniões, permitindo que elas se dissipem e voltando à qualidade imediata de nossa experiência, descobrimos que estamos em um mundo novinho em folha, que temos olhos e ouvidos novos.

Pema Chödrön no livro Quando Tudo se Desfaz – belíssimo livro!

“Eu concordo, eu concordo” resposta de um mestre Zen sobre seu medo

Uma excelente resposta para a questão do medo vinda de um mestre Zen é a que segue abaixo , dentro de sua resposta “Eu concordo, eu concordo” existe muito mais que somente duas palavras. Existe aceitação completa daquilo que é. É bem difícil alcançar isso.

Familiarizando-se com o medo

“Ninguém nos aconselha a parar de fugir do medo. Raramente somos estimulados a chegar mais perto, a simplesmente estar ali, a nos familiarizarmos com ele. Uma vez perguntei a Kobun Chino Roshi, mestre Zen, como era seu relacionamento com o medo e ele respondeu: “Eu concordo, eu concordo”. Entretanto, o conselho que geralmente recebemos nos diz para adoçá-lo, atenuá-lo, tomar um comprimido ou procurar distração. Usar todos os meios para fazer com que ele se vá.

Não precisamos desse tipo de conselho porque nos dissociarmos do medo já é o que naturalmente fazemos. Normalmente, entramos em pânico e perdemos o controle, mesmo diante da mais leve sugestão de medo. Sentimos que ele se aproxima e nos afastamos. É bom saber que agimos assim — não para nos punirmos, mas como uma forma de desenvolver compaixão incondicional. Não há nada mais doloroso que a maneira pela qual enganamos a nós mesmos diante do momento presente.

Às vezes, entretanto, ficamos encurralados. Tudo se desintegra e ficamos sem opções de fuga. Em momentos assim, as mais profundas verdades espirituais parecem muito diretas e simples. Não há esconderijo. Percebemos isso como qualquer outra pessoa o faz — melhor que qualquer outra pessoa. Mais cedo ou mais tarde compreendemos que, embora não possamos fazer com que o medo seja agradável, é ele que acabará por nos colocar diante de todos os ensinamentos que algum dia lemos ou ouvimos.

Portanto, considere-se com sorte na próxima vez em que encontrar o medo, pois é nesse ponto que entra a coragem. Geralmente pensamos que as pessoas corajosas não sentem medo, mas a verdade é que elas estão familiarizadas com ele. Quando éramos recém-casados, meu marido me disse que eu era uma das pessoas mais corajosas que ele já havia encontrado. Quando perguntei a razão disso, explicou que eu era totalmente covarde, mas, mesmo assim, seguia em frente e fazia o que precisava ser feito.

O truque está em continuar explorando e não desistir, mesmo quando descobrimos que algo é diferente do que imaginávamos. Essa descoberta se repetirá inúmeras vezes, pois nada é como imaginamos. Posso fazer essa afirmação com muita segurança. O vazio não é o que pensávamos. Nem a atenção plena, o medo ou a compaixão. Amor, natureza búdica, coragem. Essas palavras são códigos que representam o que não conseguimos compreender intelectualmente, mas que qualquer um de nós pode sentir. São palavras que nos indicam o que a vida realmente é quando deixamos que as coisas se desintegrem e nos permitimos estar ligados ao momento presente.”

Trecho do capítulo Familiarizando-se com o medo do livro Quando Tudo se Desfaz de Pema Chödrön