Treinando a mente – Dalai Lama

Do livro Transformando a Mente – Dalai Lama:

A chave para transformar nossos corações e nossas mentes é ter uma compreensão sobre a maneira que os nossos pensamentos e emoções funcionam. Nós precisamos aprender a como identificar os lados opostos em nossos conflitos internos. Por exemplo, com relação à raiva, nós precisamos ver como a raiva é destrutiva e ao mesmo tempo precisamos compreender de forma correta que existem antídotos dentro de nossos próprios pensamentos e emoções que nós podemos usar para contrapor à raiva. Portanto, primeiramente, por compreender que pensamentos e emoções aflitivas são destrutivos e negativos, e depois ao tentarmos reforçar nossos pensamentos e emoções positivas, que são os antídotos, nós podemos gradualmente reduzir a força de nossa raiva, ódio e assim por diante.

Todavia, quando nós decidimos trabalhar com nossa raiva e ódio …. É necessário fazer um esforço combinado para seguirmos uma disciplina consciente a qual aplicamos em toda a nossa vida para reduzir a força da raiva e incrementar o seu oposto, que é o altruísmo. Este é o modo para se disciplinar a mente. A introspecção é a maneira pela qual examinamos como os pensamentos e as emoções nos surgem. … Segundo a filosofia budista, muitas delas surgem a partir de hábitos e carmas do passado, que fazem surgir a propensão de pensar e sentir de um indivíduo. Qualquer que seja a razão, o fato é que muitos pensamentos e emoções surgem em nós, e quando nós os deixamos sem exame ou controle, estes nos conduzem a problemas indescritíveis, crises, sofrimento e miséria. É por esta razão que precisamos adotar a disciplina consciente sobre a qual falamos anteriormente. Para podermos reduzir o poder de uma emoção negativa como a raiva ou o ódio, nós devemos encorajar o seu antídoto, que neste caso são o amor e a compaixão. (Outros exemplos de antídotos: agarramento/apego – feiúra, orgulho – procure pelo Eu nos agregados, ignorância – vacuidade/ausência de auto-existência inerente). Não é suficiente reconhecermos que isto é que se faz necessário, assim como também não é suficiente que desejemos que o amor e a compaixão cresçam em nós. É necessário que façamos um esforço sustentado e contínuo para cultivarmos os nossos aspectos positivos internos, e a chave aqui é familiarizar-se constantemente com estes aspectos. A natureza dos pensamentos e das emoções humanas é tal, que quanto mais nos engajamos nelas, e quanto mais às desenvolvemos, mais poderosas elas se tornam.

Portanto, nós temos que desenvolver o amor e a compaixão de forma consciente para incrementar a sua força. Nós estamos na verdade falando sobre uma maneira de cultivar hábitos que são positivos. Nós fazemos isso através da meditação.

Do livro Transformando a Mente – Dalai Lama

Além de Religião – Novo livro do Dalai Lama

Dez anos atrás, em seu best-seller Uma Ética para o Novo Milênio (Editora Sextante, 2000), Sua Santidade o Dalai Lama propôs uma abordagem da ética baseada em princípios universais em vez de religiosos. Agora, em Além de Religião, em sua forma mais compassiva e franca, ele elabora e aprofunda sua visão de um caminho não-religioso.

Transcendendo as chamadas “guerras de religião”, ele descreve um sistema de ética para o nosso mundo compartilhado, que confere pleno respeito à religião. Com o mais elevado nível de autoridade espiritual e intelectual, o Dalai Lama faz um apelo inspirador para aquilo que ele chama de uma “terceira via”, um caminho para uma vida ética e feliz e para uma comunidade humana global baseada na compreensão e no respeito mútuos. Além de Religião é uma declaração essencial do Dalai Lama, um modelo para todos aqueles que talvez optem por não se identificar com nenhuma tradição religiosa, mas que ainda assim anseiam por uma vida de realização espiritual enquanto trabalham por um mundo melhor. (fonte: pré-venda em  Lucida Letra)

Introdução do livro “Além de religião”

Leia a seguir a introdução do novo livro do Dalai Lama, Além de religião, traduzido por Beatriz Bispo:


Eu sou um homem velho. Nasci em 1935, em um pequeno vilarejo no nordeste do Tibete. Por razões além do meu controle, vivi a maior parte de minha vida adulta como um refugiado apátrida na Índia, que tem sido a minha segunda casa há mais de cinquenta anos. Muitas vezes brinco que sou o hóspede mais antigo deste país. Assim como outras pessoas da minha idade, testemunhei muitos acontecimentos dramáticos que moldaram o mundo em que vivemos. Desde o final dos anos 1960, tenho viajado muito e tive a honra de conhecer pessoas de muitas origens diferentes: não apenas presidentes, primeiros-ministros, reis, rainhas e líderes de todas as grandes tradições religiosas do mundo, mas também um grande número de pessoas comuns de todas as classes sociais.

Olhando para as décadas que se passaram, tenho muitos motivos para me alegrar. Através dos avanços da ciência, doenças que eram fatais foram erradicadas. Milhões de pessoas saíram da pobreza e tiveram acesso à educação e a cuidados médicos. Temos uma declaração universal dos direitos humanos e a conscientização sobre a sua importância aumentou tremendamente. Como resultado, os ideais de liberdade e democracia se espalharam por todo o mundo e há um crescente reconhecimento da igualdade humana. Também há uma crescente conscientização sobre a importância de um ambiente saudável. Em muitos aspectos, a segunda metade do último século foi de grandes avanços e mudanças positivas no mundo.

Mas apesar de grandes avanços em muitas áreas, há ainda grande sofrimento, e a humanidade continua a enfrentar enormes dificuldades e problemas. Enquanto em partes mais prósperas do mundo pessoas desfrutam de estilos de vida altamente consumistas, em outras existem milhões de pessoas cujas necessidades básicas ainda não foram resolvidas. Com o fim da Guerra Fria, a ameaça de uma destruição global por armas nucleares diminuiu, mas muitos continuam a passar pelo sofrimento e pelas tragédias dos conflitos armados. Em muitas áreas, as pessoas também têm enfrentado problemas ambientais que ameaçam sua própria subsistência e outros muito piores. Simultaneamente, muitos outros lutam para sobreviver em face à desigualdade, à corrupção e à injustiça.

Continue lendo aqui —>  Introdução do livro “Além de religião”

OITO VERSOS QUE TRANSFORMAM A MENTE – DALAI LAMA

” Vou agora ler e explicar brevemente um dos mais importantes textos sobre a transformação da mente, Lojong Tsigyema (Oito Versos que Transformam a Mente). Este texto foi composto por Geshe Langri Tangba, um bodisatva bastante incomum. Eu próprio o leio todos os dias, tendo recebido a transmissão do comentário de Kyabje Trijang Rinpoche.” Dalai Lama

 

1. Com a determinação de alcançar. O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes, mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos, vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais alto grau.

Aqui, estamos pedindo: “Possa eu ser capaz de enxergar os seres como uma jóia preciosa, já que são o objeto por conta do qual poderei alcançar a onisciência; portanto, possa eu ser capaz de prezá-los e estimá-los.”

2. Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender. A pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre elas, e, com todo respeito, considerá-las supremas, do fundo do meu coração.

“Com todo respeito considerá-las supremas” significa não as ver como um objeto de pena, o qual olhamos de cima, mas, sim, as ver como um objeto elevado. Tomemos, por exemplo, os insetos: eles são inferiores a nós porque desconhecem as coisas certas a serem adotadas ou descartadas, ao passo que nós conhecemos essas coisas, já que percebemos a natureza destrutiva das emoções negativas. Embora seja essa a situação, podemos também enxergar os fatos de um outro ponto de vista. Apesar de termos consciência da natureza destrutiva das emoções negativas, deixamo-nos ficar sob a influência delas e, nesse sentido, somos inferiores aos insetos.

 3. Em todos os meus atos, vou aprender a examinar a minha mente. E, sempre que surgir uma emoção negativa, pondo em risco a mim mesmo e aos outros, vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.

Quando nos propomos uma prática desse tipo, a única coisa que constitui obstáculo são as negatividades presentes no nosso fluxo mental; já espíritos e outros que tais não representam obstáculo algum. Assim, não devemos ter uma atitude de preguiça e passividade diante do inimigo interno; antes, devemos ser alertas e ativos, contrapondo-nos às negatividades de imediato.

4. Vou prezar os seres que têm natureza perversa, e aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos. Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso, Muito difícil de achar.

Essas linhas enfatizam a transformação dos nossos pensamentos em relação aos seres sencientes que carregam fortes negatividades. De modo geral, é mais difícil termos compaixão por pessoas afligidas pelo sofrimento e coisas assim, quando sua natureza e personalidade são muito perversas. Na verdade, essas pessoas deveriam ser vistas como objeto supremo da nossa compaixão. Nossa atitude, quando nos deparamos com gente assim, deveria ser a de quem encontrou um tesouro.

5. Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa, ou a insultarem e caluniarem, vou aprender a aceitar a derrota, e a eles oferecer a vitória.

Falando de modo geral, sempre que os outros, injustificadamente, fazem algo de errado em relação à nossa pessoa, é lícito retaliar, dentro de uma ótica mundana. Porém, o praticante das técnicas da transformação da mente devem sempre oferecer a vitória aos outros.

6. Quando alguém a quem ajudei com grande esperança, magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,vou aprender a ver essa outra pessoa como um excelente guia espiritual.

Normalmente, esperamos que os seres sencientes a quem muito auxiliamos retribuam a nossa bondade; é essa a nossa expectativa. Ao contrário, porém, deveríamos pensar: “Se essa pessoa me fere em vez de retribuir a minha bondade, possa eu não retaliar mas, sim, refletir sobre a bondade dela e ser capaz de vê-la como um guia especial.”

 7. Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem exceção. Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos. E a tomar sobre mim, em sigilo. Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.

O verso diz: “Em suma, possa eu ser capaz de oferecer todas as qualidades boas que possuo a todos os seres sencientes,” — essa é a prática da generosidade — e ainda: “Possa eu ser capaz, em sigilo, de tomar sobre mim todos os males e sofrimentos deles, nesta vida e em vidas futuras.” Essas palavras estão ligadas ao processo da inspiração e expiração.

Até aqui, os versos trataram da prática no nível da bodhicitta convencional. As técnicas para cultivo da bodhicitta convencional não devem ser influenciadas por atitudes como: “Se eu fizer a prática do dar e receber, terei melhor saúde, e coisas assim”, pois elas denotam a influência de considerações mundanas. Nossa atitude não deve ser: “Se eu fizer uma prática assim, as pessoas vão me respeitar e me considerar um bom praticante.” Em suma, nossa prática destas técnicas não deve ser influenciada por nenhuma motivação mundana.

 8. Vou aprender a manter estas práticas. Isentas das máculas das oito preocupações mundanas. E, ao compreender todos os fenômenos como ilusórios. Serei libertado da escravidão do apego.

Essas linhas falam da prática da bodhicitta última. Quando falamos dos antídotos contra as oito atitudes mundanas, existem muitos níveis. O verdadeiro antídoto capaz de suplantar a influência das atitudes mundanas é a compreensão de que os fenômenos são desprovidos de natureza intrínseca. Os fenômenos, todos eles, não possuem existência própria — eles são como ilusões. Embora apareçam aos nossos olhos como dotados de existência verdadeira, não possuem nenhuma realidade. “Ao compreender sua natureza relativa, possa eu ficar livre das cadeias do apego.”

Deveríamos ler Lojong Tsigyema todos os dias e, assim, incrementarmos nossa prática do ideal do bodisatva.

(Extraído de The Union Of Bliss And Emptiness.) 

Autor: Dalai Lama

Fonte : www.dalailama.org.br

Oito preocupações mundanas

Querer ganhar;
Não querer perder;

Querer ser reconhecido;
Não querer ser ignorado.

Querer ser elogiado;
Não querer ser criticado;

Querer prazer;
Não querer dor;

Uma outra versão dos 8 versos:

Os Oito Versos do Treinamento da Mente
Com a intenção de conquistar o supremo objetivo
Que supera até a jóia dos desejos,
Possa eu, constantemente,
Estimar todos os seres vivos.


Sempre que estiver com os outros
Possa eu considerar-me o mais humilde.
E com perfeita intenção
Possa eu estimar os outros como supremos.

Examinando meu continuum em todos os meus atos,
No exato momento em que surgir uma ilusão,
Por eu ou os outros estarmos agindo inapropriadamente,
Possa eu firmemente enfrentá-la e afastá-la.

Sempre que encontrar seres desafortunados,
Guiados pela maldade ou sofrendo terrivelmente,
Possa eu estimá-los
Como se houvesse encontrado um raro e precioso tesouro.

Até mesmo quando alguém que eu tenha ajudado
E em quem eu tenha confiado plenamente
Não obstante me prejudicar sem motivos,
Possa eu vê-lo como meu santo e espiritual guia.
Quando alguém, devido ao ciúme,

Prejudicar-me ou insultar-me,
Possa eu arcar com a derrota
E oferecer-lhe a vitória.

Em resumo, possa eu direta e indiretamente.
Oferecer ajuda e felicidade a todas as minhas mães
E, secretamente,
Arcar com todos os seus males e sofrimentos.

Ademais, através disso tudo,
Purificado das manchas das concepções dos oito extremos
E com a mente que vê todos os fenômenos como ilusórios,
Possa eu ser libertado das amarras do concebedor.