Seguindo a corrente – História Zen

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Um velho homem bêbado acidentalmente caiu nas terríveis corredeiras de um rio que levavam para uma alta e perigosa cascata. Ninguém jamais tinha sobrevivido àquele rio. Algumas pessoas que viram o acidente temeram pela sua vida, tentando desesperadamente chamar a atenção do homem que, bêbado, estava quase desmaiado. Mas, miraculosamente, ele conseguiu sair salvo quando a própria correnteza o despejou na margem em uma curva que fazia o rio.

Ao testemunhar o evento, Kung-tzu (Confúcio) comentou para todas as pessoas que diziam não entender como o homem tinha conseguido sair de tão grande dificuldade sem luta:

“Ele se acomodou à água, não tentou lutar com ela. Sem pensar, sem racionalizar, ele permitiu que a água o envolvesse. Mergulhando na correnteza, conseguiu sair da correnteza. Assim foi como conseguiu sobreviver.”

Compreensão – Em A Alegria de Viver

Sobre a Compreensão

Por exemplo, tenho um amigo tibetano na Índia que era vizinho de um homem que tinha um cachorro mal-humorado. Na Índia, os muros que cercam o quintal da frente de uma casa são muito altos e têm portas em vez de portões. As entradas para o quintal do meu amigo e do quintal de seu vizinho eram muito próximas e, quase toda vez que meu amigo saía pela porta, o cão arranhava a porta do vizinho, latindo, rosnando e arreganhando os dentes — uma experiência absolutamente assustadora para meu amigo.

E, como se isso não bastasse, o cão ainda desenvolveu o hábito de passar pela porta e entrar no quintal do meu amigo, novamente latindo, rosnando e causando um terrível transtorno.

Meu amigo passou um longo tempo pensando em como punir o cão por seu mau comportamento. Enfim, ele teve a ideia de deixar a porta de seu quintal um pouco aberta e empilhar vários objetos pequenos e pesados em cima da porta. Assim, quando o cachorro empurrasse a porta para abri-la, os objetos cairiam, ensinando ao cão uma lição dolorosa que ele jamais esqueceria.

Depois de armar essa armadilha numa manhã de domingo, meu amigo ficou olhando pela janela esperando que o cachorro entrasse no quintal. O tempo passou e o cão não vinha. Depois de algum tempo, meu amigo iniciou seus cânticos diários, dando uma espiada pela janela de tempos em tempos. Mesmo assim, o cachorro deixou de aparecer.

Em um determinado ponto de seus cânticos, meu amigo se deparou com uma prece de aspiração muito antiga conhecida como “Os Quatro Imensuráveis”, que começa com os seguintes versos:

Que todos os seres sencientes tenham a felicidade e as causas da felicidade.
Que todos os seres sencientes sejam livres do sofrimento e das causas do sofrimento.

Enquanto entoava essa prece, subitamente lhe ocorreu que o cachorro era um ser senciente e que, ao deliberadamente montar uma armadilha, causaria dor e sofrimento ao cão. “Se eu entoar isso”, ele pensou, “estarei mentindo.

Talvez eu devesse parar de rezar”.

Mas aquilo não lhe pareceu correto, já que a prece dos Quatro Imensuráveis era parte de sua prática diária. Ele recomeçou a prece, fazendo os mais sinceros esforços para desenvolver compaixão em relação aos cães, mas, no
meio do caminho, ele se interrompeu, pensando: “Não! Aquele cão é muito mau. Ele me prejudica muito. Não quero que ele seja livre do sofrimento ou atinja a felicidade.”

Ele pensou sobre a questão por algum tempo, até que finalmente lhe ocorreu uma solução. Ele poderia mudar uma pequena palavra da prece. Assim, começou a entoar:

Que ALGUNS seres sencientes tenham a felicidade e as causas da felicidade.
Que ALGUNS seres sencientes sejam livres do sofrimento e das causas do sofrimento.

Ele ficou bastante satisfeito com a solução. Concluídas as suas preces, foi almoçar e esqueceu o cachorro. Então, decidiu sair para um passeio antes do fim do dia.

Na pressa, ele se esqueceu da própria armadilha e, quando abriu a porta do quintal, todos os objetos pesados que empilhara na borda da porta caíram em sua cabeça. Foi, para dizer o mínimo, um rude despertar. Contudo, como
resultado de sua dor, meu amigo percebeu algo muito importante.

Ao excluir alguns seres da possibilidade de atingir a felicidade e a liberdade do sofrimento, ele também excluiu a si mesmo. Reconhecendo que ele mesmo fora vítima de sua própria falta de compaixão, decidiu mudar sua tática.

No dia seguinte, quando saiu para a sua caminhada matinal, meu amigo levou consigo um pedaço de tsampa — um tipo de massa feita de cevada, sal, chá e pedaços de manteiga —, que os tibetanos costumam comer no café-da-manhã.

Assim que deu o primeiro passo para fora da porta, o cachorro do vizinho veio correndo, latindo e rosnando como de hábito; mas, em vez de praguejar contra o cão, meu amigo jogou para ele o pedaço de tsampa que estava levando.

Completamente surpreso, o cão pegou o tsampa com a boca e começou a mastigar — ainda com os pêlos eriçados e rosnando, mas distraído do ataque pela oferta da comida. Esse joguinho continuou pelos próximos dias. Meu amigo saía do quintal, o cão aparecia correndo e latindo e era surpreendido com o pedaço de tsampa que meu amigo lhe dava. Depois de alguns dias, meu amigo reparou que, apesar de continuar rosnando enquanto mastigava o tsampa, o cão começou a abanar o rabo. Ao final da semana, o cachorro não chegava mais pronto para o ataque, mas vinha correndo para cumprimentar meu amigo, esperando, feliz, um agrado. Mais tarde, o relacionamento entre os dois se desenvolveu a um ponto no qual o cão chegava trotando tranquilamente ao quintal do meu amigo para se sentar com ele ao Sol, enquanto ele recitava suas preces diárias — nesse ponto, satisfeito por poder rezar pela felicidade e liberdade de todos os seres sencientes.

Assim que reconhecemos que os outros seres sencientes — pessoas, animais e até insetos — são exatamente como nós, que sua motivação básica é vivenciar a paz e evitar o sofrimento, quando alguém age de alguma maneira ou diz alguma coisa que se oponha a nossos desejos, somos capazes de ter alguma base para a compreensão: “Ah, tudo bem, essa pessoa (ou esse animal) está assumindo essa posição porque, assim como eu, ela quer ser feliz e evitar o sofrimento. E essa é a sua motivação básica. Não é nada pessoal; ela só está fazendo o que acha que precisa fazer.”

YONGEY MINGYUR RINPOCHE no livro A Alegria de Viver

Carregando o passado – A prática de deixar ir

Tanzan e Ekido

Tanzan e Ekido caminhavam numa estrada enlameada depois de uma forte chuva.

Próximo a uma aldeia, eles encontraram uma moça que estava tendo dificuldade em atravessar a estrada por causa da lama. Se ela continuasse a caminhar, estragaria seu quimono de seda. Sem titubear, Tanzan a pegou no colo e a carregou para o outro lado da estrada.

Os monges prosseguiram na sua caminhada em silêncio. Cinco horas depois, quando já estavam perto do templo onde passariam a noite, Ekido não conseguiu mais se conter.

– Por que você carregou a moça para o outro lado da estrada? – perguntou. – Nós, monges, não devemos fazer essas coisas.

– Faz horas que coloquei aquela jovem no chão – respondeu Tanzan. – Você ainda a está carregando?

Eckhart Tolle no livro Um novo mundo: O despertar de uma nova consciência

imagem via http://zeninsights.com/2012/08/16/why-are-you-still-carrying-her/

É mesmo? História de um mestre Zen

O mestre zen Hakuin morava numa cidade no interior do Japão. Altamente estimado e respeitado, era procurado por muitas pessoas que buscavam orientação espiritual. Então aconteceu que a filha adolescente do seu vizinho apareceu grávida.

Quando os pais da moça, tomados de ira e revolta, a interrogaram sobre a identidade do pai da criança, ela acabou dizendo que era Hakuin. Transtornados de raiva, eles foram correndo até o mestre zen e, entre gritos e acusações, contaram-lhe que a filha havia confessado que ele a engravidara. Tudo o que ele disse foi:

– É mesmo?

As notícias sobre o escândalo espalharam-se por toda a cidade e fora dela. O mestre perdeu sua reputação. Isso não o preocupou. As pessoas deixaram de procurá-lo. Ele não se importou com isso também.

Quando a criança nasceu, os avós a levaram para Hakuin.

– Você é o pai, então cuide dela.

O mestre cuidou do bebê com o maior carinho. Um ano depois, a mãe, consumida pelo remorso, confessou aos pais que o verdadeiro pai da criança era o rapaz que trabalhava no açougue. Profundamente constrangidos, eles foram procurar Hakuin para se desculpar e pedir seu perdão.

– Sentimos muito. Viemos buscar o bebê. Nossa filha confessou que você não é o pai dele.

– É mesmo? – o mestre se limitou a dizer enquanto lhes entregava a criança.

Hakuin responde à falsidade e à verdade, à boa e à má notícia, exatamente da mesma maneira: “É mesmo?” Ele permite que a forma do momento, positiva ou negativa, seja como ela é e, assim, não se torna um participante do drama humano. Para Hakuin, existe apenas o momento, que sempre é como é. Os acontecimentos não são personalizados. Ele não é vítima de ninguém. Dessa maneira, alcança tal unicidade com o que acontece que os eventos deixam de ter poder sobre ele. Somente quando resistimos ao que ocorre é que ficamos à mercê dos acontecimentos e o mundo determina nossa felicidade ou infelicidade.

Eckhart Tolle no livro Um novo mundo: O despertar de uma nova consciência