O sofrimento e o fim do sofrimento

O sofrimento e o fim do sofrimento

Será que o sofrimento é realmente necessário?

Se você não tivesse sofrido o que sofreu, não teria profundidade como ser humano, não teria humildade nem compaixão. Não estaria lendo este texto agora.

O sofrimento rompe a casca do ego do eu autocentrado e promove uma abertura até atingir um ponto em que cumpriu sua função. O sofrimento é necessário até que você se dê conta de que ele é desnecessário.

A infelicidade precisa de um eu construído pela mente, um eu com uma história e uma identidade. Precisa do tempo passado e futuro. Quando você elimina o tempo da sua infelicidade, o que sobra? A situação daquele momento. Pode ser uma sensação de peso, agitação, aperto no peito, raiva ou até enjoo.

Isso não é infelicidade nem um problema pessoal. Não há nada de pessoal no sofrimento humano. Trata-se apenas de uma forte pressão ou uma grande energia que você sente em alguma parte do corpo. Se você concentra sua atenção nessa energia, a sensação não se transforma em pensamento e assim não reativa o eu infeliz.
Há muito sofrimento e tristeza quando você acha que cada pensamento que passa por sua cabeça é verdadeiro. Não são as situações que causam infelicidade. São os pensamentos a respeito das situações que deixam você infeliz. As interpretações que você faz, as histórias que conta para si mesmo é que deixam você infeliz.
Achar que estamos certos e os outros errados nos coloca numa posição ilusória de superioridade, e com isso fortalecemos nossa noção do eu . Criamos assim uma espécie de inimigo, porque o eu precisa de inimigos para definir seus limites e sua identidade. Julgar alguém ou algum fato é criar sofrimento para si mesmo. Somos capazes de criar todos os tipos de sofrimento para nós mesmos, mas não percebemos isso porque de certa forma esses sofrimentos satisfazem o ego. O eu autocentrado se sente mais confortável no conflito.

Como a vida seria mais simples sem essas histórias que o pensamento cria. Rotular uma coisa como ruim provoca uma tensão emocional. Se você deixar que as coisas existam sem classificá-las, passa a dispor de um enorme poder.

Você pode aprender a reconhecer todas essas formas de sofrimento na hora em que ocorrem e dizer para si mesmo: Estou criando um sofrimento para mim.

Se você tem o hábito de criar sofrimento para si mesmo, deve estar criando também para os OUTROS.

É impossível estar ao mesmo tempo consciente – no agora – e criando sofrimento para si mesmo.

Um diálogo:
– Aceite o que é .
– Não posso. Eu me sinto agitado e irritado por causa disso .
– Então, aceite o que é .
– Aceitar que estou agitado e irritado? Aceitar que não consigo aceitar?
– Isso mesmo. Aceite a sua não aceitação. Entregue-se à sua não entrega. E veja o que acontece.

A dor física crônica é um dos mestres mais duros que se pode ter. Ela nos ensina que a RESISTÊNCIA É INÚTIL. Quando você sofre conscientemente, quando aceita a dor física, ela anula o ego, pois o ego é formado sobretudo por RESISTÊNCIA. O mesmo ocorre com uma grande deficiência física.

Ao se entregar, aquilo que parecia negar a existência de qualquer dimensão transcendental torna-se uma abertura para esta dimensão.

Eckhart Tolle em O Poder do Silêncio

Não leve seus pensamentos muito a sério

A maioria das pessoas passa a vida toda aprisionada nos limites dos próprios pensamentos. Nunca vai além das estreitas ideias já feitas, do sentido do “eu” condicionado ao passado.

Em você, como em cada ser humano, existe uma dimensão de consciência bem mais profunda do que o pensamento. É a essência de quem você é. Podemos chamá-la de presença, de percepção, de consciência livre de condicionamentos. Nos antigos ensinamentos religiosos, essa consciência é o Cristo interior ou a sua natureza do Buda.

Descobrir essa dimensão liberta você do sofrimento que causa a si mesmo e aos outros quando conhece apenas esse pequeno “eu” condicionado e deixa que ele conduza sua vida. O amor, a alegria, a criatividade e a verdadeira paz interior só podem entrar em sua vida quando você atinge essa dimensão de consciência livre de condicionamentos.

Os pensamentos que passam por sua cabeça são meros pensamentos

Se você consegue reconhecer, mesmo esporadicamente, que os pensamentos que passam por sua cabeça são meros pensamentos; se você consegue se dar conta dos padrões que se repetem em suas reações mentais e emocionais, é sinal de que essa dimensão de consciência está emergindo. Ela é o espaço interno em que o conteúdo de sua vida se desdobra.

A corrente do pensamento tem uma enorme força que pode muito facilmente levar você de roldão. Cada pensamento tem a pretensão de ser extremamente importante. Cada pensamento quer sugar sua completa atenção.

Eis um novo exercício espiritual para você praticar: não leve seus pensamentos muito a sério.

do livro O Poder do Silêncio – Eckhart Tolle

SILÊNCIO E CALMA – O Poder do Silêncio Eckhart Tolle

Lidando com o barulho e aprendendo a encontrar a calma interior.

SILÊNCIO E CALMA
A calma é nossa natureza essencial. O que é calma? É o espaço interior ou a consciência onde as palavras desta página são assimiladas e se transformam em pensamentos. Sem essa consciência, não haveria percepção, não haveria pensamentos nem mundo.
Você é essa consciência em forma de pessoa.
Quando você perde contato com sua calma interior, perde contato com você mesmo. Quando perde esse contato, fica perdido no mundo.
O equivalente ao barulho externo é o barulho interno do pensa mento. O equivalente ao silêncio externo é a calma interior.
Sempre que houver silêncio à sua volta, ouça-o. Isso significa: apenas perceba-o. Preste atenção nele. Ouvir o silêncio desperta a dimensão de calma que já existe dentro de você, porque é só através da calma que você pode perceber o silêncio.
Veja que, quando percebe o silêncio à sua volta, você não está pensando. Está consciente do silêncio, mas não está pensando.
Quando você percebe o silêncio, instala-se imediatamente uma calma alerta NO SEU INTERIOR. VOCÊ ESTÁ PRESENTE. Nesses momentos você se liberta de milhares de anos de condicionamento humano e coletivo.
Quando você olha para uma árvore e percebe a calma da árvore, você também se acalma. Você sente uma unidade com tudo que percebe na calma e através dela. Sentir sua unidade com todas as cois as é AMOR.
O silêncio ajuda, mas você NÃO precisa dele para encontrar a CALMA. Mesmo se houver barulho por perto, você pode perceber a calma por baixo do ruído, do ESPAÇO em que surge o ruído. Esse é o ESPAÇO INTERIOR DA PERCEPÇÃO PURA, DA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA.
Você pode se dar conta dessa percepção como um pano de fundo para tudo o que seus sentidos apreendem, para todos os seus pensamentos. Dar-se conta da percepção é o início da calma interior. Qualquer barulho perturbador pode ser tão útil quanto o silêncio. De que forma? Abolindo sua resistência interior ao barulho, deixando-o ser como é. Essa aceitação também leva você ao reino da
paz interior que é calma.
Sempre que aceitar profundamente o momento como ele é qualquer que seja a sua forma você experimenta a calma e fica em paz.
Preste atenção nos intervalos o intervalo entre dois pensamentos, o curto e silencioso espaço entre as palavras e frases numa conversa, entre as notas de um piano ou de uma flauta ou o intervalo entre a inspiração e a expiração.
Quando você presta atenção nesses intervalos, a percepção de alguma coisa se torna apenas percepção. Dentro de você surge a pura consciência desprovida de qualquer forma. Você deixa então de identificar-se com a forma.
A verdadeira inteligência atua silenciosamente. A calma é o lugar onde a criatividade e a solução dos problemas são encontrados.
Será que a calma e o silêncio são apenas a ausência de barulho e de conteúdo? Não, a calma e o silêncio são a própria inteligência, a consciência básica da qual provêm todas as formas de vida. A forma de vida que você pensa é que vem dessa consciência e é SUSTENTADA POR ELA.
Essa consciência é a ESSÊNCIA das galáxias mais complexas e de todas as folhas mais simples. É a essência de todas as flores, pássaros e demais formas de vida.
A calma é a única coisa no mundo que não tem forma. Na verdade, ela não é uma coisa nem pertence a este mundo.
Quando você olha num estado de calma para uma árvore ou uma pessoa, quem está olhando? É algo mais profundo do que você.
A CONSCIÊNCIA ESTÁ OLHANDO PARA A SUA PRÓPRIA CRIAÇÃO.
Você precisa saber mais coisas do que já sabe? O que a humanidade precisa hoje é de mais sabedoria para viver. A sabedoria vem da capacidade de manter a calma e o silêncio interior. Veja e ouça apenas. Não é preciso mais além disso. Manter a calma, olhando e ouvindo, ativa a inteligência que existe dentro de
você. Deixe que a calma interior oriente suas palavras e ações.

Eckhart Tolle em O Poder do Silêncio