O maior obstáculo para experimentar a realidade do Ser – Eckhart Tolle

Pergunta: Qual é o maior obstáculo para experimentar esta realidade?

ECKHART TOLLE:

A identificação com sua mente, o que faz com que o pensamento se torne compulsivo.

Não poder deixar de pensar é uma espantosa calamidade, mas não nos damos conta disto porque quase todo o mundo sofre disto, assim que é considerado “normal”.

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Consciência e pensamento – Tenzin Palmo

Um texto muito interessante. Curto e cheio de verdade. Para ler e reler.

Tenzin Palmo (Inglaterra, 1943 ~):

Há o pensamento, e então a consciência sobre o pensamento. E a diferença entre estar consciente do pensamento e apenas pensar é imensa. É enorme … Normalmente ficamos tão identificados com nossos pensamentos e emoções, que somos eles. Somos a felicidade, somos a raiva, somos o medo. Precisamos aprender a dar um passo para trás e saber que nossos pensamentos e emoções são apenas pensamentos e emoções. Eles são apenas estados mentais. Não são sólidos, são transparentes.

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Ouvir o Pensamento – Atenção Plena

Ouvir o Pensamento

Quando abrimos a nossa mente, ou, “abrirmos mão”, focamos a atenção num único ponto ao observarmos, ao sermos a testemunha silenciosa que está consciente do que surge e do que passa. Com a vipassanā (meditação de percepção), usamos as três características, anicca (impermanência), dukkha (insatisfação) e anattā (não-eu) para observar fenômenos físicos e mentais. Estamos a libertar a mente da repressão cega, de forma a que, se ficarmos obcecados com quaisquer pensamentos comuns, medos, dúvidas, preocupações ou iras, já não precisamos de os analisar. Não temos de descobrir porque é que os temos mas apenas de os trazer por completo à nossa consciência.

Se estiverem verdadeiramente assustados com algo, estejam conscientemente assustados. Não fujam mas reparem nessa tendência de se tentarem ver livres disso. Tragam completamente à consciência o objecto do vosso medo. Pensem deliberadamente nisso, e escutem os vossos pensamentos. Isto não é para analisarmos mas sim para levarmos o medo ao seu absurdo, onde se torna tão ridículo que podemos nos começar a rir dele. Escutem o desejo, a loucura do “Quero isto, quero aquilo, tenho de ter, não sei o que farei se não tiver isto, e quero aquilo …” Por vezes a mente pode estar somente a gritar “Eu quero isto!”– e nós conseguimos ouvir isso.

Estive a ler sobre confrontos, quando gritamos uns aos outros e dizemos todas as coisas que estão reprimidas na nossa mente: isto é um tipo de catarse mas sem uma atitude consciente. Falta-lhe a capacidade de observar esse ato de gritar como uma condição, ao invés de simplesmente “deixarmo-nos ir na onda” e dizer tudo o que pensamos. Aqui não existe uma quietude mental, disposta a suportar os mais horríveis pensamentos e com a qual já não acreditaríamos que esses são problemas pessoais. Poderíamos então levar, mentalmente, o medo e a ira a uma posição absurda, onde eles são vistos como uma simples progressão natural do pensamento. Estaríamos a pensar deliberadamente em tudo quanto temos medo de pensar, não cegamente, mas observando e escutando tudo como condições da mente e não como problemas ou falhas pessoais.

Assim, nesta prática, começamos a deixar as coisas seguirem o seu curso. Não têm de andar às voltas à procura de algo específico, mas quando continuam a surgir pensamentos obsessivos que vos aborrecem e vocês estão a tentar-se livrar deles, então tragam-nos ainda mais à luz da consciência. Pensem deliberadamente neles em voz alta e ouçam, como se estivessem a ouvir alguém a falar do outro lado da cerca, como que uma velha varina: “Fizemos isto e fizemos aquilo, e depois fizemos isto e depois fizemos aquilo…” e a velha senhora naturalmente continua a divagar! Agora, como prática, tentem ouvir a mente como se fosse a voz dessa senhora, ao invés de a julgarem dizendo “Oh, não! Espero que isto não seja eu, esta não é a minha verdadeira natureza” ou tentando calá-la dizendo “Eh, ó velhota, desaparece, vai-te embora!” Todos temos essa tendência; até mesmo eu a tenho. É somente uma condição da natureza, não é? Não é uma pessoa. Então esta tendência inoportuna que temos – “Eu trabalho tanto, nunca ninguém me agradece‟ – é uma condição, não uma pessoa. Por vezes, quando estamos rabugentos, ninguém faz nada como deve de ser – mesmo quando fazem tudo bem, estão sempre a fazer mal. Essa é outra condição da mente, não é uma pessoa. A rabugice, o estado rabugento da mente é conhecido como uma condição: anicca – transitório; dukkha – não é satisfatório; anattā – não é uma pessoa. Existe o medo do que é que os outros pensarão de nós se chegarmos tarde: adormecemos, entramos e começamos a preocupar-nos sobre o que todos estão a pensar de nós por termos chegado tarde – “Eles pensam que sou preguiçoso.” A preocupação com o que os outros pensam é uma condição da mente. Pode também acontecer que estamos sempre aqui a horas e quando alguém chega tarde nós pensamos “Chegam sempre tarde; será que nunca conseguem chegar a horas?!” Também isso é outra condição da mente.

Estou a trazer as coisas triviais para um nível completamente consciente, todas aquelas coisas que simplesmente pomos de lado justamente por serem triviais. Não queremos nos preocupar com as trivialidades da vida! Mas quando não nos importamos, tudo isso fica reprimido e tornando-se num problema. Começamos a sentir ansiedade, a sentir aversão a nós próprios ou aos outros, ou a ficar deprimidos; tudo isso vem de recusarmo-nos a permitir que as condições, trivialidades ou coisas horríveis, se tornem conscientes.

Surge assim o estado mental da dúvida, que nunca tem a certeza do que fazer: surge o medo, a incerteza e a hesitação. Tragam deliberadamente ao de cima o estado de incerteza e descontraiam nesse ponto em que a mente se estabelece quando não estamos agarrados a nada em particular. “O que devo fazer, devo ir ou devo ficar, devo fazer isto ou aquilo, devo fazer ānāpānasati ou vipassanā?” Observem isso. Coloquem-se questões que não podem ser respondidas, como “Quem sou eu?” Reparem no espaço de tempo vazio antecede o pensamento. Estejam alerta, fechem os olhos e imediatamente antes de pensarem “quem”, observem: a mente está bastante vazia, não está? Segue-se “quem sou eu?” e de seguida um espaço depois da interrogação. Esse pensamento vai e vem do nada, do vazio, não é? Quando estamos pura e simplesmente emaranhados no processo pensante habitual não conseguimos observar o pensamento a surgir, ou conseguimos? Não conseguimos ver, somente conseguimos reparar no pensamento depois de o termos começado a pensar. Então comecem a pensar deliberadamente de forma a apanharem o começo do pensamento, antes de na verdade começarem a pensá-lo. Agarrem deliberadamente em pensamentos como “Quem é o Buddha?”. Pensem isso intencionalmente e verão o começo, a formação e o fim do pensamento, e também o espaço que o envolve. Estão a observar os pensamentos e os conceitos em perspectiva ao invés de apenas lhes reagirem.

Imaginem que estão zangados com alguém. Pensam “Isso é o que ele disse, ele disse isto e aquilo e fez isto e não fez aquilo como deve ser, fez tudo mal; ele é tão egoísta … e ainda me lembro quando ele fez aquilo àquele, e depois…‟ Uma coisa leva à outra, não é? São naturalmente apanhados nesta dinâmica em que uma coisa leva à outra, de uma forma contínua, motivada pela aversão. Em vez de serem apanhados nessa corrente, ou torrente, de pensamentos e conceitos associados, pensem deliberadamente: “Ele é a pessoa mais egoísta que já conheci.” E o término de seguida, o vazio. “Ele é um ovo podre, um rato sujo, ele fez isto e aquilo‟. Podemos observar e até se torna engraçado, não é? Quando fui a primeira vez para Wat Pah Pong costumava ter imenso ódio e aversão sempre a virem ao de cima. Por vezes sentia-me muito frustrado por não saber o que realmente se passava e não me queria conformar tanto como ali era suposto. Até deitava fumo pelas orelhas. Ajahn Chah lá continuava – ele podia dar duas horas de palestras em Lao – enquanto isso eu estava com dores terríveis nos joelhos e então tinha pensamentos do gênero: “Porque é que não paras de falar? Eu pensava que Dhamma era simples, porque é que ele tem de levar duas horas para dizer alguma coisa?” E tornava-me muito crítico para com todos. Comecei então a refletir nisto e a ouvir-me a mim próprio a ficar zangado, a ser crítico, a ser malicioso, com ressentimentos – “Eu não quero isto, não quero aquilo, não gosto disto, não vejo porque é que tenho de me sentar aqui. Não quero ser incomodado com estas coisas tolas. Eu não sei…” – e por aí fora. Ao mesmo tempo pensava: “Quem diz isto é uma pessoa gentil? É assim que tu queres ser, essa coisa que está sempre a queixar-se e a criticar, a procurar defeitos; é esse o tipo de pessoa que queres ser? “Não! Eu não quero ser assim.”

Mas tive de o tornar completamente consciente para o poder realmente ver e não apenas acreditar. Senti-me como que “justiceiro” comigo próprio e quando nos sentimos justiceiros e indignados e achamos que os outros estão errados, podemos facilmente acreditar neste tipo de pensamentos: “Não vejo nenhuma necessidade para este tipo de coisas; na realidade, o Buddha disse … o Buddha nunca iria permitir isto, o Buddha…; Eu sei muito acerca de budismo!” Tragam-no ao de cima conscientemente, de maneira a poderem ver, tornem-no absurdo e então terão uma perspectiva sobre o assunto, o que torna tudo bastante interessante. Podemos ver o que é a comédia! Levamo-nos muito a sério – “Eu sou uma pessoa tão importante, a minha vida é tão importante que devo ser sempre bastante sério acerca dela. Os meus problemas são tão importantes, tão sobejamente importantes. Tenho de passar muito tempo com os meus problemas pois eles são tão importantes.” Achamo-nos sempre muito importantes. Portanto pensem, deliberadamente pensem: “Eu sou uma pessoa muito importante e os meus problemas são muito importantes e sérios.‟ Quando estamos a pensar isso parece engraçado, soa meio tolo, pois na verdade apercebemo-nos que não somos assim tão importantes – nenhum de nós o é. E os problemas que criamos acerca da vida são coisas triviais. Algumas pessoas podem arruinar as suas vidas por criarem problemas sem fim e levarem-nos todos tão seriamente.

Se pensarem que são pessoas muito sérias e importantes não quererão coisas triviais ou tolas. Se quiserem ser boas pessoas, pessoas santas, então as condições malévolas são algo que têm de suprimir da vossa consciência. Se quiserem ser um tipo de ser amoroso e generoso, então qualquer tipo de maldade ou ciúme ou mesquinharia é algo que têm de aniquilar ou de reprimir na vossa mente. O que quer que seja que, nas vossas vidas, mais tenham medo de ser, pensem-no em voz alta e observem. Podem fazer confissões: “Eu quero ser um tirano!‟ “Eu quero ser um traficante de heroína!‟; “Eu quero ser um membro da Máfia!‟; “Eu quero …‟ O que quer que seja. Já não estamos preocupados com a qualidade disso, mas apenas com o fato de isso ser uma condição impermanente, insatisfatória, pois não contem nada que os possa realmente satisfazer. Vem e vai e é “não-eu‟.

Do livro Plena Atenção – Caminho para a imortalidade – Ensinamentos sobre meditação – Venerável Ajahn Sumedho
Pode ser baixado gratuitamente: http://www.amaravati.org/languages/portuguese/