Compreensão – Em A Alegria de Viver

Sobre a Compreensão

Por exemplo, tenho um amigo tibetano na Índia que era vizinho de um homem que tinha um cachorro mal-humorado. Na Índia, os muros que cercam o quintal da frente de uma casa são muito altos e têm portas em vez de portões. As entradas para o quintal do meu amigo e do quintal de seu vizinho eram muito próximas e, quase toda vez que meu amigo saía pela porta, o cão arranhava a porta do vizinho, latindo, rosnando e arreganhando os dentes — uma experiência absolutamente assustadora para meu amigo.

E, como se isso não bastasse, o cão ainda desenvolveu o hábito de passar pela porta e entrar no quintal do meu amigo, novamente latindo, rosnando e causando um terrível transtorno.

Meu amigo passou um longo tempo pensando em como punir o cão por seu mau comportamento. Enfim, ele teve a ideia de deixar a porta de seu quintal um pouco aberta e empilhar vários objetos pequenos e pesados em cima da porta. Assim, quando o cachorro empurrasse a porta para abri-la, os objetos cairiam, ensinando ao cão uma lição dolorosa que ele jamais esqueceria.

Depois de armar essa armadilha numa manhã de domingo, meu amigo ficou olhando pela janela esperando que o cachorro entrasse no quintal. O tempo passou e o cão não vinha. Depois de algum tempo, meu amigo iniciou seus cânticos diários, dando uma espiada pela janela de tempos em tempos. Mesmo assim, o cachorro deixou de aparecer.

Em um determinado ponto de seus cânticos, meu amigo se deparou com uma prece de aspiração muito antiga conhecida como “Os Quatro Imensuráveis”, que começa com os seguintes versos:

Que todos os seres sencientes tenham a felicidade e as causas da felicidade.
Que todos os seres sencientes sejam livres do sofrimento e das causas do sofrimento.

Enquanto entoava essa prece, subitamente lhe ocorreu que o cachorro era um ser senciente e que, ao deliberadamente montar uma armadilha, causaria dor e sofrimento ao cão. “Se eu entoar isso”, ele pensou, “estarei mentindo.

Talvez eu devesse parar de rezar”.

Mas aquilo não lhe pareceu correto, já que a prece dos Quatro Imensuráveis era parte de sua prática diária. Ele recomeçou a prece, fazendo os mais sinceros esforços para desenvolver compaixão em relação aos cães, mas, no
meio do caminho, ele se interrompeu, pensando: “Não! Aquele cão é muito mau. Ele me prejudica muito. Não quero que ele seja livre do sofrimento ou atinja a felicidade.”

Ele pensou sobre a questão por algum tempo, até que finalmente lhe ocorreu uma solução. Ele poderia mudar uma pequena palavra da prece. Assim, começou a entoar:

Que ALGUNS seres sencientes tenham a felicidade e as causas da felicidade.
Que ALGUNS seres sencientes sejam livres do sofrimento e das causas do sofrimento.

Ele ficou bastante satisfeito com a solução. Concluídas as suas preces, foi almoçar e esqueceu o cachorro. Então, decidiu sair para um passeio antes do fim do dia.

Na pressa, ele se esqueceu da própria armadilha e, quando abriu a porta do quintal, todos os objetos pesados que empilhara na borda da porta caíram em sua cabeça. Foi, para dizer o mínimo, um rude despertar. Contudo, como
resultado de sua dor, meu amigo percebeu algo muito importante.

Ao excluir alguns seres da possibilidade de atingir a felicidade e a liberdade do sofrimento, ele também excluiu a si mesmo. Reconhecendo que ele mesmo fora vítima de sua própria falta de compaixão, decidiu mudar sua tática.

No dia seguinte, quando saiu para a sua caminhada matinal, meu amigo levou consigo um pedaço de tsampa — um tipo de massa feita de cevada, sal, chá e pedaços de manteiga —, que os tibetanos costumam comer no café-da-manhã.

Assim que deu o primeiro passo para fora da porta, o cachorro do vizinho veio correndo, latindo e rosnando como de hábito; mas, em vez de praguejar contra o cão, meu amigo jogou para ele o pedaço de tsampa que estava levando.

Completamente surpreso, o cão pegou o tsampa com a boca e começou a mastigar — ainda com os pêlos eriçados e rosnando, mas distraído do ataque pela oferta da comida. Esse joguinho continuou pelos próximos dias. Meu amigo saía do quintal, o cão aparecia correndo e latindo e era surpreendido com o pedaço de tsampa que meu amigo lhe dava. Depois de alguns dias, meu amigo reparou que, apesar de continuar rosnando enquanto mastigava o tsampa, o cão começou a abanar o rabo. Ao final da semana, o cachorro não chegava mais pronto para o ataque, mas vinha correndo para cumprimentar meu amigo, esperando, feliz, um agrado. Mais tarde, o relacionamento entre os dois se desenvolveu a um ponto no qual o cão chegava trotando tranquilamente ao quintal do meu amigo para se sentar com ele ao Sol, enquanto ele recitava suas preces diárias — nesse ponto, satisfeito por poder rezar pela felicidade e liberdade de todos os seres sencientes.

Assim que reconhecemos que os outros seres sencientes — pessoas, animais e até insetos — são exatamente como nós, que sua motivação básica é vivenciar a paz e evitar o sofrimento, quando alguém age de alguma maneira ou diz alguma coisa que se oponha a nossos desejos, somos capazes de ter alguma base para a compreensão: “Ah, tudo bem, essa pessoa (ou esse animal) está assumindo essa posição porque, assim como eu, ela quer ser feliz e evitar o sofrimento. E essa é a sua motivação básica. Não é nada pessoal; ela só está fazendo o que acha que precisa fazer.”

YONGEY MINGYUR RINPOCHE no livro A Alegria de Viver